Há quem diga que não há dança sem par. Na coreografia pictórica que lhe é própria, Hiram Latorre convida cadeiras, frutas e candelabros para uma curiosa dança coletiva. O artista brasileiro reúne elementos de culturas distantes para encenar um encontro enérgico, no qual móveis e vegetais se tornam protagonistas de pinturas de desfecho aberto, narrativamente conduzidas.
Com um gesto animista que concede alma a objetos ordinários, o artista dá vida àquilo que, de outro modo, permaneceria como mero pano de fundo compositivo. Ao colocar em cena uma banana, uma romã, um lustre e a cadeira Girafa de Lina Bo Bardi, Latorre convoca esses personagens a desafiar a própria natureza da natureza-morta. Além disso, o encontro inesperado entre esses elementos desencadeia uma manobra narrativa e pictórica igualmente inquietante: culturas brasileiras e do Oriente Médio convergem em pinturas que devem sua essência tanto ao design modernista quanto ao orientalismo de Matisse, ou a motivos e paletas cromáticas árabes.
Tendo vivido em um kibutz — termo que, em hebraico, sugestivamente significa “reunião” —, colhido tâmaras, viajado por desertos ao lado de beduínos e drusos e trabalhado com crianças em uma escola de arte em Tel Aviv, o jovem artista de herança judaica conjura um jogo de referências bem-humorado que desestabiliza nossa noção de tempo e, de modo ainda mais marcante, nosso senso de espiritualidade. Seus arranjos compositivos — ou rituais-pictóricos, se preferirmos — transformam a própria arquitetura dos espaços representados em universos autônomos, povoados por presenças enigmáticas em interiores por vezes austeros. Oriente e Ocidente colidem em suas composições, levando-nos a questionar a anima infundida em todo e qualquer objeto que acompanha a humanidade desde tempos imemoriais — seja alimento, artefato ou iconografia sagrada.
Sob a superfície de suas pinturas, emergem, de forma provocadora, perguntas tão absurdas quanto instigantes: e se Matisse fosse persa? E se Lina Bo Bardi tivesse se mudado da Itália para o Oriente Médio, em vez da América do Sul? E se nossos companheiros de mesa fossem objetos vivos, capazes de falar?
Tendo estudado arquitetura em São Paulo, com especial interesse pelo mobiliário de Sérgio Rodrigues, Lina Bo Bardi e afins, Hiram Latorre parece se deleitar com a ideia de pôr a mesa e receber convidados por meio de suas pinturas, como se cozinhasse para fantasmas modernistas ou amigos imaginários. Seus pigmentos, feitos à base de cera de abelha, também exigem um tempo próprio de preparo e “cozimento”, resultando em blocos densos de cores terrosas bem definidas. Geralmente pintados a partir de uma perspectiva aérea, os objetos de sua afeição parecem fazer uma pausa sob o olhar do observador, entregando-se a um momento de escárnio e desdém em relação à natureza-morta à qual se supunha estivessem confinados.
Além dos objetos dotados de alma presentes nas pinturas, a exposição reúne ainda diversas esculturas em bronze espalhadas pela galeria e por suas lareiras. Aqui, aquilo que poderia ter sido investido de vida tridimensional ou de utilidade — flores que parecem candelabros — permanece em uma existência aparentemente inanimada, permitindo que as pinturas concentrem toda a ação no espaço.