SERMÃO ANTI-PATRONÍMICO PARA HUDINILSON JR.
Ricardo Domeneck
Hudinilson, se eu me endereço e me dirijo, me remeto e me destino a você nessa fala, como um sermão, não é porque creia que você está entre nós, em espírito. Eu acredito em assombração, mas não em fantasma. Muito me custou conseguir me desprogramar, me deseducar das crenças impostas na casa da infância. Não creio mais no além que não seja apenas um lugar longe, mas físico, concreto. O único além que permanece em minha vida é o para-lá-de-Bagdá. Não mais cidades celestiais, mas as terrenas, mesmo que sejam sacralizadas apenas pelas crenças dos outros membros da espécie, como Jerusalém ou Lhasa, Ilé-Ifẹ̀ ou Bodhgaya. O que se passa, que se passe aqui. A vontade de um deus qualquer, mas na terra. Sem punições eternas por vidas bem ou mal vividas. E, no entanto, o grande trabalho de luto por nós mesmos e por aqueles que amamos e admiramos segue. Esse trabalho grandioso que é o luto.
Dirigir-me a você aqui, portanto, Hudinilson, é uma estratégia para me dirigir aos vivos. Os que porventura estejam entre as mesmas quatro paredes que eu, se eu vocalizar esse texto a gente presente, ou os que agora, sozinhos, em voz baixa ou nenhuma, o leem. Numa exposição dos seus trabalhos, nós todos chegamos para celebrar, como num aniversário, ou velar, como num enterro? Não vivemos num estado constante de LUXO e LUTO, FESTA e VELÓRIO? Ao sairmos de uma exposição de arte, podemos ao menos dizer: eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando, mas fui a uma exposição de arte. Temos as mãos limpas? Cá estão seus trabalhos, Hudinilson, e podemos dizer que você lutou a boa luta, combateu o bom combate? Quem é você, Hudinilson? Paulistano, brasileiro e latino-americano, americano e ocidental, sul-globalista, globaustral? Macho e bicha, bicho e chama, de corpo exposto pelas máquinas que reproduzem imagem, mas não aura?
Que nome estranho, Hudinilson. Artista do saldo de Brás Cubas, dos que não tem filhos, mas carregam no nome essa estranha espécie de patronímico, esse SON, FILHO, IAN, ES, FEN, ZON, IBN, e essa repetição filial, SON e JUNIOR. Ou as formas fêmeas de se definir a FILHA pelo PAI, como -OVNA e -EVNA, ou o DOTTIR daquela ilha gelada. Aquele outro artista queer, do Norte do continente, não fez uma obra que dizia exatamente: THE FAMILY TREE STOPS HERE, DARLING? E eu, que até os nove anos não tive sequer o sobrenome do meu pai, porque ele não estava casado com minha mãe, e eu não podia ter no RG seu Domeneck. Era e sou o que, um Joãoson, um Johnson? Meu pai está morto, Hudinilson está morto, eu me dirijo aos vivos, ainda que Anne Carson tenha dito que o poeta salva-os e é salvo pelos mortos.
Então eu falo aos vivos, salvo pelos mortos, e o que é eu sei da vida? Vinte anos separam o meu nascimento do seu, 1957, 1977. Você tinha cerca de 7 anos quando a Ditadura Militar começou, eu tinha cerca de 7 anos quando ela acabou. Quando, nos anos 1980, você estava xerocando o próprio corpo na capital do estado, eu estava no seu interior, me escondendo, para que ninguém percebesse meu corpo, como ele se movia de forma diferente dos outros meninos, para que ninguém notasse que minha voz tinha um trinado meio fêmea. Essa coisa difícil para nossa espécie tão social, um dos seus membros ser diferente. Como aquele menino na fila da merenda na escola, tínhamos 7 anos, que se virou para mim e perguntou, de forma sincera: Você é MENINO ou MENINA? E a fila toda explodiu em gargalhada. Tenho ressentimentos contra aquela criança, insegura de que tipo de bicho eu era? E você, Hudinilson, o que define a sua singularidade? Os nomes do seu pai e da sua mãe? Seu endereço, seu RG, seu CPF, sua escola de samba do coração, os nomes dos homens e mulheres que você amou, se amou, se teve paixão? Tinha paixão? Tinha paixão.
Estou mais apto a falar de você? Por compartilharmos bichices? Mas qual bichice, bichos ou bichas, nossa bichice de corpo, ter que comer todos os dias, não esquecer de beber agua, e urinar, defecar, anjos que defecam são os humanos, esses fluidos corporais todos, o esperma que sai do anturio do teu corpo? Você amou homens como bichos? Seu corpo peludo, como são peludos todos nós, os primatas? Ah, bicho.
Cá estamos, no contexto da sua obra, feita muitas vezes com imagens do seu corpo, imagens degradadas propositalmente pela maquinaria das fotocópias, as sem-aura. Como genes que cometem erros na hora da reprodução e desses erros vêm as mutações que nos dividem no planeta, somos humanos e polvos, somos cavalos e lagartos, somos baleias e pintassilgos. E essas reproduções, como arte, são como filhos que lançamos no mundo, pinturas e fotografias, poemas e canções, nós que temos o saldo de Brás Cubas? Você estava questionando o próprio ato de identificação e reprodução, e como ver esses corpos baços, fotocopiados, em nossa era de celebração da identidade? O buraco, os buracos são sempre mais abaixo.
Represento eu, nesse texto, outros bichos e outras bichas, eu que não ponho ovos, como uma galinha num quintal ou num conto de Clarice Lispector? O poeta norte-americano George Oppen escreveu certa vez: “There is nobody here but as chickens”, e eu respondi noutro texto, There is nobody here but is kitchens, there is nobody here but us chicanos, there is nobody here but us Chechens. Estou fazendo aqui exatamente o que se espera de mim? Somos pagos para ser previsíveis?
Ninguém espera realmente metafísica desses nossos corpos, Hudinilson. Nas estranjas, quem espera metafísica de um latino-americano? No proprio pais, quem espera metafisica dos bichos-bichas, das bichas-bichos? Essa nossa animalidade, antes temida, a que causava nojinhos, será agora celebrada pelos mercados, em busca do pink money? São nossos corpos nossa paliçada? Nossas ereções são agora resistência política? Foram. São. Serão. Não sei, Hudinilson. Quando você coloca seu rosto, suas mãos, suas impressões digitais em obras de arte, como se em registros gerais da União, você confirma ou apaga sua identidade? Que escudo pode ser meu corpo para os corpos dos outros que agora estão em perigo, meu corpo que agora se esvai em palavras e está seguro nesse texto, enquanto o seu corpo, Hudinilson, já não requer segurança.
Você está morto, Hudinilson. Você é agora mais caro. Artista bom é artista morto. Jovens exibem seus corpos nas plataformas digitais de pornografia, para escaparem do Kentucky, de Kamtchatka, de Cataguases, porque sabem que jamais serão CEO de empresa alguma, então fazem dos seus corpos suas empresas, como voce fez do seu corpo a sua obra, Hudinilson, e esse texto silencia sobre os corpos em perigo, corpos de outras cores, de outras vontades, em perigo neste exato momento, no Kentucky, em Kamtchatka, em Cataguases, e arrastamos nossos corpos pesados sobre a terra, e, quando morremos, esperamos apenas que um vivo diga nosso nome e então diga: que a terra seja leve sobre seu corpo.