De 20 de agosto a 19 de setembro, Martins&Montero apresenta, em São Paulo, loopinpindorama, exposição coletiva que articula obras do acervo da galeria e de artistas convidados, aproximando diferentes gerações e linguagens a partir de recorrências, continuidades, desvios e interrupções na produção artística brasileira. A mostra tem curadoria de Felipe Molitor.
A palavra-valise que intitula a exposição nasce de uma sobreposição imperfeita: looping — termo associado, no campo audiovisual, à repetição contínua de uma sequência — aglutina-se à Pindorama, topônimo de origem tupi relacionado ao território hoje chamado Brasil. A palavra inventada condensa, a partir de suas voltas sonoras, uma sensação familiar e ao mesmo tempo inquietante: a de algo que retorna, se realimenta e insiste em continuar. Em um ano novamente atravessado por eleições gerais, loopinpindorama toma esse movimento menos como tema do que como condição: em vez de propor um retrato do país, a exposição se detém sobre imagens, formas e impasses que reaparecem através do tempo.
A mostra parte também de uma leitura do próprio percurso de Martins&Montero: um núcleo importante de trabalhos pertence ao seu acervo ou se vincula à essência experimental e às articulações intergeracionais que marcam sua trajetória. A esse núcleo somam-se artistas convidados, cujas pesquisas ampliam, deslocam ou tensionam essas relações, fazendo da exposição um encontro entre histórias já construídas e afinidades ainda possíveis.
Organizada em dois momentos, loopinpindorama se apresenta primeiro como uma antologia da videoarte no Brasil. Em uma única projeção, trabalhos realizados em diferentes momentos históricos martinsemontero.comaparecem segundo uma sequência variável. Essa antologia, no entanto, funciona como um dispositivo de cinemática própria: autoria e sequência não são imediatamente reveladas, e o público interfere no que está sendo exibido, podendo permanecer diante de uma obra ou precipitar a chegada da seguinte. O dispositivo incorpora, assim, um regime contemporâneo de atenção — no qual passar, interromper e procurar a próxima imagem se tornaram gestos ordinários — sem tomá-los apenas como déficit ou perda. Ao mesmo tempo, desloca para o espectador uma parcela do poder de decisão normalmente concentrado na programação curatorial: uma escolha individual passa a incidir sobre a experiência coletiva.
Em um segundo momento, pinturas, fotografias, esculturas, objetos e instalações substituem a sucessão temporal do vídeo por relações de proximidade, contiguidade ou disparidade. Trabalhos de Lydia Okumura, Rafael França, Ava Rocha, Lia D Castro e Pontogor, entre outros, são aproximados por ressonâncias e fricções formais, materiais ou conceituais, sem que essas relações se estabilizem em uma narrativa linear.
Em destaque, TV (2018), de Luiz Roque, articula vídeo e escultura em uma estrutura branca de grandes dimensões, em forma de L, sobre a qual repousa um volume circular de madeira. Em uma das extremidades, um monitor exibe figuras geométricas coloridas que deslizam continuamente, à maneira de um antigo protetor de tela. Entre aparelho eletrônico, escultura, arquitetura e imagem em movimento, a obra reúne algumas das ambiguidades da exposição: aquilo que parece avançar permanece em circuito; o que pertence a um passado tecnológico retorna como imagem; o que deveria funcionar apenas como suporte adquire corpo e passa a ocupar o espaço.
Mais do que organizar uma narrativa sobre o Brasil que foi e o Brasil que é, loopinpindorama se instala no intervalo entre ambos. O passado retorna e é reatualizado no presente; o futuro, por vezes, aparece como mera continuidade. Entre permanecer e passar, reconhecer e interromper, a exposição se pergunta o que fazer diante daquilo que insiste em se repetir.
Artistas – pinturas, esculturas, fotografias, objetos e instalações: 3NÓS3; Ava Rocha; Frederico Ravioli; Helena Ramos; João Livra; Lia D Castro; Luiz Roque; Lydia Okumura; Manoela Cezar; Pontogor; Rafael França; Renato Pera; Thomaz Rosa.
Artistas – sala de vídeo: Aline Motta; Anna Bella Geiger; Cinthia Marcelle; Dias & Riedweg; Felipe Barsuglia; Guerreiro do Divino Amor; Jota Mombaça; Juraci Dórea; Nicolas Thomé Zetune; Regina Silveira; Sonia Andrade; Wisrah C. V. da R. Celestino.