Os solos, as águas, os têxteis, os objetos e as espécies que habitam o mundo não são meramente o pano de fundo da história humana; são seus arquivos ativos. Por meio de processos de sedimentação, erosão, transmissão e transformação, a matéria registra acontecimentos, deslocamentos e formas de vida. Reunindo artistas de diferentes contextos, What Earth Remembers [O que a terra lembra] explora a memória para além da esfera humana, compreendendo-a como uma qualidade distribuída entre corpos, materiais, paisagens e organismos vivos. A exposição convida à reflexão sobre os modos pelos quais o mundo preserva, absorve e reinscreve as marcas do tempo.
Na obra de Masha Silchenko (nascida em 1993 na Ucrânia, vive em Paris), a deterioração torna-se um gesto produtivo. Suas pinturas, realizadas sobretudo com alvejante sobre tela, transformam um ato de apagamento em modo de inscrição. O tecido é simultaneamente fragilizado e preservado por sucessivos gestos de cuidado, enquanto a costura que emoldura cada composição evoca práticas de reparação. Por meio de figuras recorrentes — uma mulher passeando com seu cachorro, túmulos e céus em pranto —, a artista desenvolve uma meditação sobre a persistência da memória diante da perda, revelando a vulnerabilidade como inseparável da resistência.
As obras de Céline Vahsen (nascida em 1987 na Bélgica, vive em Bruxelas) deslocam os têxteis para o campo da pintura. Tingidos com pigmentos extraídos de plantas, flores e insetos, seus fios são tramados por meio de um processo que equilibra controle e acaso. Ao reativar formas ancestrais de artesanato, a artista evidencia as origens terrestres tanto da cor quanto da fibra, tornando visíveis as redes ecológicas e culturais inscritas no suporte que se torna a própria obra. Em suas composições abstratas, o tecido deixa de funcionar como suporte e passa a afirmar-se como matéria viva, carregando memória em sua própria estrutura.
As cúpulas cerâmicas da série Tao Magic, de Jennifer Tee (nascida em 1973 nos Países Baixos, vive em Amsterdã), evocam a lua como figura de transformação cíclica e recorrência temporal. Formadas a partir da argila, essas obras condensam diferentes escalas de duração: a temporalidade cósmica dos corpos celestes e a temporalidade geológica inscrita no próprio meio. Resultado de milhões de anos de erosão mineral, a argila carrega uma história profunda que antecede a presença humana. Se a lua é compreendida como tendo emergido da Terra, aqui ela retorna a uma condição terrestre, reunindo narrativas geológicas e cosmológicas em uma única forma.
Psyché, Psycho, Psychosis, de Michaela Schweighofer (nascida em 1983 na Áustria, vive em Bruxelas), inspira-se em espelhos dobráveis outrora comuns em interiores domésticos austríacos. Seu título faz referência a Psiquê, figura mitológica associada à alma, embora esses objetos pareçam destituídos de sua função reflexiva. Recobertos por lenços de seda encontrados em mercados de pulgas e por uma fina camada de celofane, tornam-se superfícies de retenção, mais do que de representação. Em vez de devolver uma imagem, parecem acumular vestígios, transformando-se em repositórios silenciosos de circulação, intimidade e migração.
As obras de Ana Mazzei (nascida em 1979 no Brasil, vive em São Paulo) frequentemente aparecem como fragmentos de uma narrativa interrompida. Em Miragem, uma superfície reflexiva sugere uma paisagem instável, suspensa entre aparição e desaparecimento. Próxima a ela, Alma assume a forma de uma onda ascendente apoiada sobre pés de bronze. Oscilando entre enraizamento e desprendimento, a escultura evoca a persistência espectral de um corpo ausente. Em ambas as obras, a memória emerge não como reconstrução do passado, mas como presença incompleta, continuamente tomando forma.
No vídeo Waterwill, Jota Mombaça (nascida em 1991 no Brasil, vive entre Lisboa e Amsterdã) acompanha um tecido à deriva por diferentes ambientes aquáticos. Os sedimentos que gradualmente se acumulam sobre sua superfície tornam-se índices materiais dos territórios que ele atravessou. Entrelaçando reflexão poética e experiências de migração política, ecológica e emocional, a obra compreende o próprio movimento como um processo de inscrição. Essa investigação se estende a ghost 2: words don’t go there, série composta por têxteis, lama e sedimentos que retêm não apenas os movimentos da água, mas também as camadas de violência colonial, industrial e ambiental inscritas nas paisagens contemporâneas.
Em sua prática, Maria Thereza Alves (nascida em 1961 no Brasil, vive entre Berlim e Nápoles) desloca a atenção para formas de coexistência que desafiam perspectivas antropocêntricas. Em Proposal: Dwelling for Jumping Spider / papa-mosca, uma estrutura cerâmica oferece abrigo a uma aranha-saltadora, enquanto um galho de bronze torna-se um lugar para sua atividade. Butterfly Puddling Pools, por sua vez, oferece às borboletas acesso à água e aos minerais essenciais à sua sobrevivência.
Mais do que representar a natureza, essas obras operam como infraestruturas de coexistência, evidenciando as redes de dependência que conectam diferentes formas de vida. Em conjunto, as obras em What Earth Remembers [O que a terra lembra] propõem uma compreensão ampliada da memória. Longe de ser uma faculdade exclusivamente humana, a memória emerge como um processo distribuído, compartilhado entre materiais, organismos e paisagens. Os vestígios inscritos em têxteis, minerais, águas e espécies revelam histórias de interdependência, transformação e persistência. A exposição nos convida a considerar a Terra não como um palco passivo para a ação humana, mas como um arquivo vivo no qual múltiplas temporalidades continuam a ser registradas e tornadas significativas.